Conversamos com o guitarrista da banda de thrash metal de Brasília Snake Hair, Cairo Fernandes. Ele nos falou sobre o cenário de Metal Nacional, shows, dificuldades encontradas na vida de músico, a expansão do metal em Brasília e o que espera do futuro.
Já curtiu a banda? Saca aí o som:
Pintando o 7: Você pode me falar sobre o começo da banda?
Cairo: A Snake Hair foi formada no fim do ano passado, eles ensaiavam e compunham ainda sem ter nenhum show. O outro guitarrista começou a dar alguns problemas, não comparecendo aos ensaios, que eram pontuais. Eles conseguiram o primeiro show da banda, mas uma semana antes, o guitarrista saiu e os deixou na mão. Eles procuraram guitarristas, mas ninguém queria ter a missão de pegar todas as músicas em uma semana pra tocar no final de semana, não daria tempo. Para mim não dava porque eu tinha a seletiva do carnarock pra tocar na quinta-feira da mesma semana do show deles, no domingo. Eu topei a missão que chamaram de suicida, e tive ainda menos tempo de pegar as musicas. Eu peguei todas em um dia, que foi na sexta, ensaiamos o show no sábado e tocamos no domingo. E foi assim que entrei pra Snake Hair.
Pintando o 7: Fale sobre suas influências e o lifestyle da banda.
Cairo: Bem minhas influências são bem diretas do thrash, heavy, groove e death. Tenho como inspiração guitarristas como Chuck S do Death, Adrian Smith (Iron Maiden) e o meu maior ídolo, Dimebag Darrel. Isso compõe um pouco da pegada que tenho nas músicas. A banda ensaia pontualmente aos finais de semana, as formações mudaram algumas vezes, fazendo com que nosso som ainda não esteja completamente ''redondo'' entende?
Pintando o 7: Todo vocês tem as mesmas influências de som, ou ainda há divergência entre vocês para a criação do material da banda?
Cairo: Bela pergunta porque esse é o ponto que eu acho mais fantástico na Snake Hair, cada um tem influências completamente diferentes. Entretanto, eu e o Pedro, o outro guitarrista, nos damos bem por tocarmos coisas quase na mesma vertente. Ele é simplesmente fissurado em Megadeth e Metallica enquanto eu sou fissurado em Pantera e Death, coisas que batem mais ou menos no estilo thrash. O nosso baterista tem influências diretas do black metal fazendo ele ser extremamente rápido, ágil e criativo. Nosso baixista tem influência bem pesada do thrash metal também. E o Jack é o que dá o diferencial porque a voz dele é muito heavy/power metal dando o toque diferencial. E o mais incrível é que nos unimos muito perfeitamente nas composições, a diferença nos gostos musicais não interfere em nada em nossas composições.
Pintando o 7: Quando o heavy metal começou a fazer parte da sua vida, e o que o influenciou a começar a tocar?
Cairo: Bem, o heavy metal começou a fazer parte da minha vida quando eu tinha 15 anos, estava no ensino médio e um amigo meu me presenteou com um DVD chamado "The Early Days" do Iron Maiden, foi a primeira vez que parei pra ouvir Iron Maiden, e foi paixão a primeira vista (risos). Desde então procurei tudo a respeito da vertente, e ouvi várias outras bandas. A história de como comecei a tocar guitarra foi bem curiosa. Minha irmã, em 1998, tentou aprender a tocar violão e não conseguiu, deixou o violão parado. Eu sempre olhava e achava super difícil sem nem tentar. Ai, em 2005, eu estava no ensino médio e esse mesmo colega que me presenteou com o DVD disse que iria aprender a tocar baixo e disse pra mim ''você vai ser da minha banda, tu tem cara de guitarrista, aprende a tocar''. Nem coloquei pilha, mas ri e disse que sim. Daí peguei o violão e comecei a tentar aprender, mas sem nenhuma força maior porque eu nem tava botando muita pilha naqueles sonhos de adolescente do ensino médio (risos). E um belo dia ele chegou na escola com uma guitarra Stratocaster preta que não tinha nem marca e disse: ''Toma, é sua, pra você aprender.'' Fiquei chocado com a situação, (risos), e pensei ''Agora eu vou ter que aprender a tocar mesmo''. E em 2006 que realmente me foquei em aprender a tocar, e tudo que aprendi até hoje foi sozinho, interpretando teorias e técnicas baseadas no que eu via de shows de bandas que eu gostava na época, como Metallica, Slayer, Pantera, Ozzy, Led Zeppelin e tudo mais.
Pintando o 7: Como você avalia a cena metal brasiliense?
Cairo: A cena metal brasiliense é muito rica. Entretanto, existem muitas bandas de estilos muito parecidos, que tocam quase da mesma forma, falta novidade mesmo nas vertentes que já existem. É tudo muito reto e igual. E o que desfavorece é a galera que diz curtir mas não vai aos shows alternativos que existem de montes em brasília, para dar o devido apoio as bandas existentes na cena.
Pintando o 7: E em sua opinião, quais são as principais dificuldades encontradas pelas bandas de metal, hoje em dia, no underground?
Cairo: A falta de apoio da galera que curte e a burocracia que existe na escolha de bandas pra promover seus shows. Os promotores de eventos querem público e normalmente eles não pagam nem a passagem das bandas que se propõe a tocar. Querem bandas boas mas não dão incentivo e nem espaço pras bandas mostrarem seu som. Em Brasília, se você não conhecer as pessoas certas ou não tiver um som que chame bastante atenção a ponto de quererem você lá, porque a galera vai e dá lucro pra eles, nunca vão sair do anonimato.
Pintando o 7: Você acha que hoje em dia, o underground é mais valorizado no Brasil, ou fora daqui?
Cairo: O underground é bem desvalorizado no Brasil pelo fato dos apreciadores do som quererem pagar só pra ver bandas consagradas. Dizem faltar bandas boas na cena, mas eles não lembram que os grandes só estão lá por conta deles mesmos e de outras pessoas que pagaram pra ir num show quando eles eram desconhecidos e viram que eles são bons. Com toda certeza o underground fora do Brasil é muito mais valorizado, até por ser notável que os grandes ícones do metal tais como Angra, Sepultura, Krisiun, Violator, Korzus entre outras fazem sucesso somente fora. O povo brasileiro não dá apoio nenhum ao metal, e os que dão apoio são insuficientes, o Brasil é um país imenso.
Pintando o 7: Então você concorda com a declaração do Edu Falaschi? (Ver entrevista ao Rock Express)
Cairo: Não completamente, ele realmente estava com raiva e disse que a cena metal do Brasil morreu. Não acho que morreu, eu acho que o povo brasileiro ainda terá consciência de tudo o que tá rolando, porque não dão valor aqui e os músicos tem que sair daqui pra poder ter vista, mas que falta apoio, falta. E ele está certo em inúmeros pontos do que disse na declaração, que "a cena está morta" ele disse por estar com raiva, a cena é fraca mas não tá morta. E existem lugares como o nordeste brasileiro que velho, lá a galera realmente é true. Sim velho, lá a galera valoriza o underground e vai nos shows, inúmeras bandas de lá saem pra fazer shows em outros estados de lá mesmo pelo apoio que a galera dá às bandas. Mas o centro-oeste é um dos lugares mais fracos, e com a massa mais hipócrita da cena metal brasileira.
Pintando o 7: Sobre as participações, você já foi companheiro da banda Memphysth. Como foi o período junto com essa banda brasiliense? E o que esse mesmo período acrescentou para sua formação musical e headbanger?
Cairo: A Memphysth me fez conhecer muito da cena brasiliense e conhecer muitas bandas, das quais fiquei fã mesmo e não conhecia. Minha experiência como músico foi bem produtiva por eu poder ter tido experiência de palco e evolução musical, como headbanger mudou muito minha forma de ver as coisas porque existem inúmeras bandas que apesar d'eu não saber o nome, fui a shows prestigiar só pela curiosidade de poder haver algo bom. E também percebi o quanto a galera é hipócrita e não dá valor aos eventos, até porque muitos vão unicamente pra ficar do lado de fora do local, bebendo e jogando conversa fora, perdendo a performance e a qualidade das bandas em apresentação. Vi que a maioria não abre mão de seus 10 reais no máximo pra ver ver um show e comprar sua garrafa de cachaça. Isso é frustrante de se ver.
Pintando o 7: Na sua opinião, qual é o fator mais importante em fazer música com uma banda? E podemos esperar um novo material da Snake Hair?
Cairo: O fator mais importante, querendo ou não, é ter noção teórica musical, porque não adianta fazer uma música que não tenha cadências certas e soe estranho. O fundamental de tudo é ouvir muita coisa, para que não fique alienado em um só estilo musical. O público sempre vai ser chamado à atenção com novidades. É fundamental saber se adaptar, porque nem tudo o que se compõe você vai gostar, mas saber adaptar seu jeito com o que é proposto, que faz a música soar bem de todos os lados dos integrantes. E estudar, sempre estudar música, porque nunca vai parar. E sim, podem esperar, temos materiais novos prontinhos só pra serem adaptados e serem executados nos shows que vem por aí.
Autora: Jéssyca Mattos.
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